A Marcha das Vadias tem um nome forte, que às vezes assusta.
Mas assustador mesmo é ouvir que a culpa pelo estupro é da mulher.
Assim nasceu a marcha, em abril deste ano, no Canadá, quando o policial Michael Sanguinetti, na Universidade de Toronto, pediu para as mulheres não se vestirem como “Sluts” (putas) para evitarem ser estupradas.
O protesto reuniu mais de 3000 pessoas que saíram às ruas de Toronto para defender os direitos das mulheres e dar um grito pela liberdade sexual feminina. Negando rótulos e estereótipos, deram o nome à marcha de “SlutWalk”, a Marcha das Vadias, e com roupas extravagantes se vestiram sem medo e sem vergonha. Elas se permitiram brincar com vestimentas, usar blusas decotadas, mini-saias, e algumas ainda ousaram sair de sutiã e calcinha.
Desde então, a manifestação se espalhou por todo mundo e ganhou milhares de adeptos por meio das redes sociais. O principal objetivo da marcha é fazer com que a sociedade reflita o machismo.
Não receio afirmar que o Brasil está entre os países mais sexistas do mundo, e a sexualidade da mulher é apenas uma forma de perceber o machismo.
Nós brasileiras nos deparamos cotidianamente com o controle da sexualidade feminina. A concepção conservadora-religiosa é repressora e dita que a mulher deve esconder o corpo ante a sociedade e se resguardar para o marido. Por outro lado, a voracidade do capitalismo tem interesse pelo corpo feminino descoberto, e nesse caso expõe, banaliza, explora e agride a sexualidade feminina.
Nesses dois casos, o motivo é o mesmo, um desequilíbrio de poder existente entre homens e mulheres, em que a mulher ainda é vista como objeto sexual do homem.
A brincadeira, a piada, ironia é muito bem-vinda e inteligente quando é utilizada para quebrar preconceitos e combater a violência. É esse o sentido da marcha, ao mostrar de maneira positiva e lúdica que as mulheres podem e devem se vestir, andar e agir como quiserem, sem serem agredidas.
Entretanto, o assunto é muito sério. A agressão de qualquer tipo contra a mulher é inaceitável, e quando se trata de violência física nem se fala. Uma a cada três mulheres, no Brasil, já sofreu algum tipo de violência sexual ao longo da vida. É um problema de saúde pública? Sim! É um problema de segurança pública? Também! Mas é preciso chegar à raiz da questão.
O direito a uma vida livre de qualquer tipo de violência, seja psicológica ou física é um dos direitos mais básicos da mulher.
Infelizmente, não é assim que pensa a sociedade brasileira. Até hoje muitas mulheres são criadas dentro de uma perspectiva de submissão ao homem. E esse pensamento é tão comum quanto grave. Dessa mentalidade machista é que decorre uma aceitação social da violência baseada no gênero.
Quem não se lembra da tenebrosa frase de Maluf 'estupre, mas não mate', ou da recente “piada” do humorista Rafinha Bastos: “homem que estupra mulher feia não merece cadeia, merece um abraço”. É comum, portanto, aceitarmos as normas sociais, que atribuem ao homem o direito de usar o corpo da mulher ao seu arbítrio.
Sei que estou sendo repetitiva, mas antes repetitiva que oculta. A violência sexual contra a mulher sempre existiu, no entanto só recentemente está sendo discutida no Brasil e só a partir dos anos 90 entrou pra agenda política.
Este ano, comemoram-se 100 anos da primeira marcha do dia internacional da mulher. Contudo e apesar das conquistas, muitas bandeiras de luta são as mesmas há mais de um século. As causas precisam ser redesenhadas e ganhar novos contornos e abordagens. O movimento feminista precisa de uma reconfiguração.
Estamos comemorando também a vitória da primeira mulher eleita presidente do Brasil, e comemorando o fato de tantas mulheres estarem à frente de ministérios e outras instâncias do poder público. Mas queremos que isso seja um fato corriqueiro e que os direitos da mulher e o combate ao assédio sexual feminino seja uma prioridade de governo.
Talvez, há dez anos, uma afirmação como a do policial Canadense não causasse tanto impacto. A marcha veio pra mostrar que as mulheres estão mais livres e não querem ficar caladas.
A Marcha das Vadias teve início no Brasil no dia 4 de junho, em São Paulo. A manifestação da Avenida Paulista incentivou o resto do país, e já estão sendo organizadas marchas em Fortaleza, Recife, Juiz de Fora, Belo-Horizonte e Brasília.
Não fiquemos caladas: Venham participar da Marcha das Vadias, no dia 18 de junho, em frente ao Conjunto Nacional, ao meio-dia, em Brasília.
“ESTUPRO NÃO É PIADA, MACHISMO MATA”
Lia Padilha Fonseca
Engenheira Agrônoma e Feminista. Organizadora da Marcha das Vadias em Brasília.





